ÁLBUM!

    Cornélio Almeida Neto

    Cornélio Almeida Neto

    Psicologia
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    08 de junho de 20263 min de leitura
    ÁLBUM!

    Entre conversas com uma amiga, surgiu o tema de um presente que uma criança do meu círculo íntimo havia recebido: um álbum de figurinhas da Copa do Mundo. Rapidamente, ela perguntou se outra criança da família tinha visto o presente. Respondi que sim. Com o semblante iluminado pela alegria, comentou que compraria um álbum também para presenteá-la. Nunca deveríamos impedir alguém de exercitar um gesto de nobreza e dação. A generosidade é uma virtude genuinamente humana: quanto mais se oferece, mais se possui. Conheço pessoas que não têm receio de receber, justamente porque aprenderam a dar sem medidas e sem temor às eventuais feridas.

    Pensei então no álbum. Neste em particular, os pacotes de figurinhas custam caro e trazem apenas algumas unidades, entre elas as tão desejadas figurinhas especiais. Um colega comentou que seu filho utiliza uma balança de precisão para identificar quais pacotes pesam um pouco mais, pois as figurinhas raras possuem ligeira diferença de peso. E, naturalmente, na hora das trocas, o valor atribuído a elas também muda. A paixão pelo futebol move uma Nação inteira. E parece que, quanto mais emocionados ou apaixonados estamos, menos percebemos certas realidades que saltam aos olhos de todos.

    No álbum da nossa vida, quais são as figurinhas que já estão desgastadas, sem utilidade, mas que insistimos em conservar como verdades absolutas? Quais são aquelas que consideramos especiais e intocáveis, a ponto de nos aborrecermos quando alguém ousa questioná-las? E quantas vezes colamos em nossas páginas as opiniões das arquibancadas, permitindo que os outros decidam por nós o que devemos pensar, sentir ou fazer?

    Hoje, os álbuns também mudaram. As fotografias da árvore genealógica são digitalizadas, armazenadas em pen-drives, nuvens e dispositivos protegidos por senhas. Guardamos tudo, mas nem sempre preservamos as raízes. E aquilo que perde suas raízes, cedo ou tarde, é esquecido.

    Mais uma Copa se aproxima. Menos ruas pintadas, menos bandeirinhas ao vento. Álbuns mais sofisticados, mais caros e, paradoxalmente, pessoas mais indiferentes. Ao que parece, passamos a vida colecionando figurinhas. Sentimo-nos especiais quando somos diferentes, admirados ou destacados; como se fôssemos o camisa 10 do time. As figurinhas comuns, porém, tendemos a descartar. Buscamos o placar perfeito, o estádio ideal, a vitória definitiva. Acreditamos que seremos felizes quando alcançarmos aquilo que a sociedade costuma apontar como sucesso: casa, carro, status, viagens e reconhecimento.

    E a bola continua rolando. Cada vez mais tecnológica, mais veloz, mais moderna. Enquanto isso, seguimos acreditando que o próximo ano trará as mudanças que esperamos. Mas nada muda verdadeiramente se nós mesmos não mudarmos.

    Que a semana em curso nos permita, com sã coragem e uma saudosa saudade, retirar do nosso álbum interior aquelas figurinhas que foram entronizadas de tal maneira que passamos a dizer: "isto sou eu." Não precisamos ser extraordinários o tempo todo para merecer um lugar no álbum da própria vida. Até os grandes jogadores passam a maior parte do tempo caminhando em campo, observando, preparando-se para o momento certo. As figurinhas comuns também têm seu valor. São elas que sustentam o jogo, que dão fôlego à caminhada e que nos lembram da simplicidade do viver. Nossa alma é a verdadeira morada do Ser. É o Amor que confere identidade ao nosso eu mais profundo, e não as inúmeras figurinhas com as quais nos identificamos ao longo da existência. Que saibamos colecionar menos aparências e cultivar mais essência.

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    Cornélio Almeida Neto

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    CRP-DF 5693

    Psicólogo Clínico

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