ARGONAUTAS

Cornélio Almeida Neto

Assistia a uma breve apresentação de um Amigo muito querido, que falava sobre Jasão e os Argonautas, heróis da mitologia que embarcaram na nave Argo, em busca do Velo de Ouro. Jasão, o líder (algo raro nos tempos atuais) buscava recuperar o trono que lhe era legítimo. Ao seu lado, reuniram-se grandes nomes: Héracles, Orfeu, Castor, Pólux, Medeia, entre outros, todos submetidos aos desafios impostos pelo rei Eetes, da Cólquida. Os mitos, para muitos, não são apenas histórias antigas, mas realidades psicológicas, repletas de significados profundos.
Há momentos na vida em que somos chamados a empreender uma travessia. Não uma viagem comum, mas aquela que exige coragem para deixar o porto seguro e avançar rumo ao desconhecido. Na verdade, somos convidados a isso todos os dias. Contudo, a mecanicidade e os hábitos bem instalados, muitas vezes, nos impedem de percebermos, e permanecemos atentos apenas ao murmúrio confortável das circunstâncias.
Assim como Jasão reuniu seus companheiros e lançou-se ao mar, também nós somos silenciosamente convocados a buscar algo mais elevado: um sentido, uma verdade, uma conquista interior. O mar que enfrentamos nem sempre é feito de águas, mas de instintos, sensações, emoções, pensamentos circulares e circunstâncias que nos desafiam continuamente. E os monstros não habitam apenas terras distantes; eles também residem nas regiões ainda pouco iluminadas de nós mesmos.
Se olharmos com os olhos do coração, e não com uma mente enclausurada ou endurecida, perceberemos que dentro de nós "navega uma embarcação': firme quando alinhada, capaz de atravessar tempestades; instável quando dispersa, necessitando de direção, ritmo, atenção e vontade. Cada virtude cultivada é como um Argonauta que se levanta a nosso favor. Cada desordem, procrastinação ou medo excessivo torna-se uma onda que nos põe à prova. Por vezes, surge também a força sutil do conhecimento, como Medeia auxiliando-nos a superar obstáculos invisíveis. Mas ela exige discernimento, pois aquilo que nos eleva, quando mal conduzido, também pode nos desviar. A grande lição dessa jornada não está apenas em alcançar o Velo de Ouro, mas em nos tornarmos dignos dele. De que vale conquistar, se não sabemos sustentar? De que vale chegar, se nos perdemos de nós mesmos no caminho?
Que possamos, nesta semana, assumir com nobreza e elegância o nosso próprio percurso: direcionando os desejos, polindo os hábitos, refinando os sentimentos, iluminando a mente, fortalecendo a vontade e elevando as ações em direção ao Divino.
O Velo de Ouro aguarda a todos, sem distinção de raça, cor, credo ou condição social, não como prêmio, mas como reflexo daquele que ousou ser virtuoso, crescer como Ser Humano e transformar-se.
Sobre o autor

Cornélio Almeida Neto
Psicólogo Clínico
