CORAÇÃO!

Cornélio Almeida Neto

Um Amigo muito querido, que faz o generoso sacrifício de ler aquilo que escrevo semanalmente, abordou-me durante um de nossos encontros na Fazenda Nova Acrópole e, amavelmente, fez um pedido: "Escreva algo sobre o coração"! No mais íntimo daquilo que considero ser, procuro escrever e realizar minhas ações somente quando me sinto livre para fazê-lo e com o coração o mais presente possível. A esse Amigo, minha gratidão pela singela inspiração.
Pensei então, a respeito do coração. Quantas vezes conversamos com ele? Quantas vezes percebemos seu palpitar, seus apertos, suas vibrações ou aquela estranha sensação de que, diante de certas experiências, parece fechar-se para a Vida?
Do ponto de vista filosófico e simbólico, o coração é considerado, em muitas tradições, a sede da alma, o centro dos sentimentos mais elevados e da coragem.
Biologicamente, é um dos primeiros órgãos a entrar em funcionamento durante o desenvolvimento embrionário. Ainda nas primeiras semanas de gestação, inicia suas contrações e, à medida que o sistema circulatório se desenvolve, participa da distribuição de oxigênio e nutrientes indispensáveis à formação e à manutenção dos demais órgãos.
Ao longo da vida, bate aproximadamente cem mil vezes por dia, trabalhando silenciosamente, sem solicitar reconhecimento ou recompensa. Que magnífico exemplo de dar, sem querer nada em troca! Impulsiona o sangue, permite o transporte de nutrientes e hormônios, conduz substâncias para sua eliminação e contribui para manter o equilíbrio do organismo. Que extraordinária expressão de serviço!
O coração não retém para si aquilo que recebe. Impulsiona, distribui e mantém a circulação da Vida. Talvez, por isso, os antigos tenham encontrado nele um símbolo tão profundo. Do latim cor, coração, deriva também a palavra coragem, como se a própria linguagem nos recordasse que viver exige mais do que simplesmente existir: exige disposição interior para enfrentar, amar e servir. O coração físico sustenta o organismo pela circulação do sangue. O coração afetivo alimenta a vida interior pela circulação dos sentimentos. Ambos, em planos diferentes, oferecem-nos uma bela imagem da doação.
Quando cultivamos amizades sinceras, convivemos com pessoas bondosas, alimentamos pensamentos nobres, selecionamos nossas leituras e ampliamos a maneira de contemplar o mundo, criamos condições favoráveis não apenas ao equilíbrio emocional, mas também ao bem-estar físico. Há sentimentos que parecem expandir o coração. Outros, quando não compreendidos, fazem-nos experimentar apertos, inquietações e tensões. Corpo e emoções dialogam constantemente, embora nem todo sintoma físico tenha origem emocional. Talvez a grande lição seja aprender a escutar esse diálogo sem perder a serenidade e o discernimento.
Que na semana em curso, possamos observar com maior atenção, qual alimento oferecemos diariamente ao nosso coração. Que saibamos cuidar de sua saúde física, mas também preservar sua dimensão simbólica, cultivando a bondade, a gratidão, a coragem e os afetos verdadeiros. E que, à semelhança desse extraordinário órgão, aprendamos a receber sem acumular egoisticamente, a distribuir sem exigir recompensa e a manter em circulação aquilo que possuímos de melhor. O coração físico pulsa para conservar a vida, enquanto o coração que educamos nas virtudes nos ensina porque vale a pena vivê-la. Que cada pulsação seja também um convite para fazer do nosso coração não apenas um lugar onde a Vida acontece, mas um centro de onde a bondade se irradia.
Afetuoso abraço, Cornélio
Sobre o autor

Cornélio Almeida Neto
Psicólogo Clínico
