CORRENTES!

Cornélio Almeida Neto

Estava participando de uma conferência com o professor Carlos Adelantado, Presidente Internacional da Nova Acrópole, sobre As Esferas da Consciência, mesmo título de um livro de sua autoria.
Após a significativa apresentação, abriu-se espaço para perguntas, e uma delas chamou minha atenção: O que fazer para ser mais livre? Na síntese de sua resposta, comentou que deveríamos romper os elos das correntes que nos aprisionam, fazendo uma bela relação com o Mito da Caverna, de Platão.
Aproveitei o ensejo e pensei um pouco sobre as correntes. Na alegoria platônica, libertar-se não significa simplesmente arrebentá-las de uma só vez, mas realizar uma gradual conversão da consciência. Quem passou a vida contemplando sombras, ao voltar-se para a luz, sente-se ofuscado e pode desejar retornar ao conhecido.
Talvez aconteça o mesmo conosco. Há correntes que, depois de tantos anos, confundimos com partes de nós mesmos.
Físicas: hábitos, comodidades, excessos e dependências que condicionam nossa maneira de viver. Libertar apenas o corpo, sem modificar a consciência, pode significar trocar uma caverna por outra.
Psicológicas: apegos, medos, angústias, ressentimentos e desilusões. Muitas vezes nos identificamos tanto com eles que afirmamos: “Eu sou assim”, “este é o meu jeito”. As sombras tornam-se familiares e parecem seguras.
Mentais: crenças, preconceitos e opiniões cristalizadas que, de tanto serem repetidas, passam a apresentar-se como a própria realidade. Aqui mora um perigo sutil: confundir a nossa verdade com a Verdade.
Talvez um dos pontos mais significativos do Mito da Caverna seja que a libertação não termina na saída. Aquele que contemplou a luz retorna à caverna. Não porque deseje novamente as correntes, mas porque compreendeu que liberdade também é responsabilidade. E retorna disposto a ajudar, sabendo que poderá encontrar resistência daqueles que ainda vivem entre as sombras.
Que na semana em curso, possamos observar quais correntes ainda nos aprisionam. Talvez não consigamos rompê-las de uma só vez, mas podemos começar pelos elos mais frágeis e ir limando, com atenção e disciplina, os mais resistentes. Assim, elo após elo, sombra após sombra, aproximamo-nos da luz e compreendemos que a verdadeira liberdade não consiste apenas em deixar de estar preso, mas em desenvolver consciência suficiente para ajudar, com fraternidade, aqueles que ainda caminham em direção a ela.
Sobre o autor

Cornélio Almeida Neto
Psicólogo Clínico
