ENGARRAFAMENTO!

    Cornélio Almeida Neto

    Cornélio Almeida Neto

    Psicologia
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    18 de junho de 20263 min de leitura
    ENGARRAFAMENTO!

    Chegava ao local de trabalho quando, ainda no hall de entrada, antes de atravessar a porta giratória, cumprimentei um cliente conhecido de longa data. Ele respondeu à saudação, mas visivelmente exaltado. Esbravejava por ter perdido um tempo precioso no trânsito: “Foram mais de duas horas! comentava indignado. Quem suporta uma coisa dessa, todos os dias? Aproveitou o ensejo para desabafar sobre a situação política, a economia, a crescente falta de credibilidade nas instituições e naqueles que as representam”.

    Ouvi atentamente, sem emitir juízo de valor. E não me restou outra alternativa senão refletir sobre os engarrafamentos, tão comuns nas grandes cidades, capazes de semear estresse e desalento nas primeiras horas da manhã e, novamente, ao final de expedientes que, para muitos, o trabalho já não oferece grande satisfação.

    Carros, ônibus, motos... Todos desejam o mesmo asfalto, no mesmo horário. Parece que silenciosamente combinamos a hora de sair de casa, alimentando a fantasia de que chegaremos pontualmente ao destino. Basta uma pequena colisão para que surjam os atrasos, as buzinas, os corações acelerados, o combustível desperdiçado na imobilidade. Carros à frente, atrás e ao lado; enquanto alguns insistem em disputar espaços que simplesmente não existem.

    A antiga e boa cortesia vai sendo deixada pelo caminho. Insultos, gestos e xingamentos tornam-se paisagem habitual. Por vezes, parece haver uma estranha sintonia entre a potência dos motores e a vibração dos seus condutores. Há veículos demais para poucas vias. Mas talvez o engarrafamento não aconteça apenas nas ruas.

    A cidade, em certa medida, reproduz aquilo que também existe dentro de nós. Quantas vezes nos vemos presos em congestionamentos emocionais? Raivas acumuladas, ansiedades persistentes, medos silenciosos, frustrações mal resolvidas que não encontram vazão?

    Muitas vezes já entramos no ônibus, no carro ou subimos na moto, irritados. Então, qualquer fechada transforma-se em gatilho para acionar a buzina mental. O outro não foi a causa, mas apenas a espoleta que desencadeou descontentamentos antigos: conosco mesmos, com a família, com o trabalho, com o entorno ou com o mundo que imaginamos que deveria ser diferente.

    Outras vezes, o corpo permanece ao volante, mas a mente já está na reunião que ainda acontecerá, no boleto prestes a vencer, no filho que precisa ser buscado na escola, na ausência da babá, no colega que, segundo o nosso julgamento, colabora menos do que deveria. A lista de preocupações parece interminável. Nada está bom.

    Que tal na semana em curso, aprendermos a sair um pouco mais cedo, não apenas de casa, mas também das urgências interiores? Talvez possamos descobrir novas rotas e perceber que não é somente o trânsito que engarrafa. Ao abrirmos a via expressa da respiração consciente, oxigenamos melhor os órgãos, serenamos os sistemas e favorecemos reflexões mais lúcidas. Ao ouvirmos uma boa música, recitarmos um poema ou simplesmente cantarolarmos, chegaremos ao destino com mais alegria, menos rusticidade e maior entusiasmo. Assim, o trabalho deixará de ser apenas um peso e poderá tornar-se uma oportunidade diária de conhecer melhor a nós mesmos. Muitas vezes, o caminho que precisa ser desobstruído não é o da cidade, mas o do coração.

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    Sobre o autor

    Cornélio Almeida Neto

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    CRP-DF 5693

    Psicólogo Clínico

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