GENÉTICA!

Cornélio Almeida Neto

Vez ou outra ouvimos algo que nos convida a pensar um pouco mais. Vivemos um período curioso, em que boa parte de nós considera a própria maneira de ver o mundo como a mais correta e precisa de todas. Que estranho legado! Se mantivermos um mínimo de atenção, descobriremos que em todos os lugares e com todas as pessoas, sempre existirá algo a observar, ouvir, compreender e aprender.
Estava em uma oficina fazendo a revisão do carro quando, a certa altura, chegou outro cliente. Conversa vai, conversa vem, começou a comentar sobre as doenças existentes em sua família e encerrou o argumento de maneira categórica: 'É tudo genética"! Quando uma defesa mental está demasiadamente cristalizada em qualquer assunto, torna-se difícil acrescentar alguma coisa. Muitas vezes, resta-nos apenas ouvir.
Aproveitei o ensejo para pensar um pouco sobre a genética. Há uma tendência a transformar a herança genética em uma espécie de sentença, como se aquilo que recebemos biologicamente determinasse, por si só, tudo aquilo que seremos. Sem negar a extraordinária importância dos genes, talvez seja prudente evitar esse determinismo. Os genes podem estabelecer características, predisposições e probabilidades; algumas alterações genéticas podem, inclusive, ser decisivas para determinadas doenças. Mas o Ser Humano, independentemente de sua origem, cor, raça, credo ou condição social, é muito, muito mais do que o seu DNA. Os genes oferecem parte da matéria-prima da existência, mas não escrevem, sozinhos, toda a história daquele que vive.
A Natureza nos entrega uma herança. Recebemos um corpo, tendências, potencialidades, facilidades e limitações. Mas recebemos também um campo imenso de possibilidades, dos quais, alimentação, ambiente, hábitos, educação, trabalhos, experiências, escolhas e tantos outros fatores participam da expressão da vida. E em outra dimensão, somos chamados a participar conscientemente da nossa própria construção: educando pensamentos, refinando sentimentos, orientando ações e desenvolvendo virtudes.
Talvez aí resida uma das grandes dignidades do Ser Humano: receber uma herança sem estar condenado a ser apenas aquilo que recebeu. A vontade, a disciplina e os valores que cultivamos podem ajudar-nos a transformar tendências, administrar limitações e abrir novas possibilidades de crescimento. Não somos somente aquilo que recebemos da Natureza, mas também aquilo que escolhemos cultivar todos os dias.
Que na semana em curso, possamos observar um pouco melhor os limites que impomos à nossa própria mente. Que o conhecimento da genética nos inspire humildade, jamais fatalismo; responsabilidade, nunca acomodação; prudência, sem medo. E quanto maior for o nosso poder de conhecer, interpretar e até intervir nos mecanismos da vida biológica, maior deverá ser também o nosso compromisso ético com a dignidade humana, a justiça e o bem comum.
Não escolhemos todos os genes que recebemos. Não escolhemos todas as circunstâncias que encontraremos. Mas existe um pequeno e precioso espaço entre aquilo que herdamos e aquilo que fazemos com a nossa herança. A cada escolha mais justa, a cada virtude cultivada e a cada serviço realizado em benefício dos demais, deixamos de ser apenas depositários de uma herança, para nos tornarmos, dentro dos limites da própria Vida, participantes conscientes da nossa transformação.
Afetuoso abraço, Cornélio
Sobre o autor

Cornélio Almeida Neto
Psicólogo Clínico
