LANTERNA!

Cornélio Almeida Neto

Recebia uma encomenda com algumas lanternas e, ao abrir o pacote, algumas crianças do meu círculo íntimo estavam próximas. Era noite, e começamos a brincar com o alcance e o diâmetro dos focos de luz. Uma delas, ao ligar a lanterna, repetia com encanto juvenil:Luz… escuridão… dia… noite…
A simplicidade daquela observação me fez pensar na utilidade da lanterna e, sobretudo, nestes tempos em que tantos valores humanos parecem obscurecidos. Quando a busca por conhecer a si mesmo se torna necessária, conquistar um pouco de luz, por menor que seja, já é suficiente para iluminar alguns rincões no caminho.
Há momentos na vida em que a luz não se apresenta imediatamente. Caminhamos, então, por veredas mais densas, onde os contornos se desfazem e as referências habituais silenciam. São esses os lugares escuros da sabedoria, não como ausência, mas como gestação. Tal como aprendemos na prática constante da filosofia, é no recolhimento mais interno que a alma começa a escutar aquilo que o ruído do mundo muitas vezes não permite ouvir. O escuro, nesse sentido, não é a negação da luz, mas o seu íntimo invisível.
Muitas vezes fugimos dessas regiões interiores. Preferimos a pressa à presença, o excesso de pensamentos ao silêncio, a explicação à experiência, a ocupação constante ao trabalho consciente e voluntário. Contudo, é justamente quando diminuímos os ruídos externos que algo mais essencial começa a revelar-se.
Assim como a semente necessita da terra escura para germinar, também nós precisamos de momentos de interiorização para florescer. Não se trata de estagnação, mas de um movimento mais profundo, um retorno elegante ao próprio centro.
Que na semana em curso, possamos acolher os silêncios sem inquietação; habitar o presente com mais inteireza; permitir que aquilo que existe de mais íntimo em nós amadureça sem a ansiedade de ser imediatamente compreendido ou nomeado. E que, nesse contínuo “liga e desliga” da nossa lanterna interior, a luz volte a surgir, como sempre surge. E, quando ela surgir, que nos encontre mais inteiros, mais simples, mais humildes, mais conscientes e mais verdadeiros.
Sobre o autor

Cornélio Almeida Neto
Psicólogo Clínico
