LUCIDEZ!

Cornélio Almeida Neto

Estava em uma fila de uma loja de autopeças, adquirindo alguns itens para reposição, lubrificantes e aditivos. À minha frente, duas pessoas conversavam em tom um pouco exaltado sobre os mais diversos assuntos: família, governos, economia, futebol e tantos outros temas que costumam povoar as conversas do dia a dia. Um deles parecia ter solução para tudo. Falava com firmeza, gesticulava bastante, emitia opiniões sobre qualquer assunto. Entretanto, havia algo que chamava a atenção: a forma como falava, os gestos que fazia e o olhar que sustentava pareciam não caminhar na mesma direção. Havia muito discurso e pouca correspondência prática. Uma situação, aliás, bastante familiar em muitos dos ambientes que conhecemos. O outro, que ouvia pacientemente aquele desabafo matinal, em determinado momento sintetizou tudo em uma única frase: “Parece que falta luz em tudo”.
Nada mais simples. Três letras apenas, mas quando a luz se faz presente em qualquer espaço ou tempo, tudo ganha maior amplitude, clareza e profundidade. Vê-se melhor. Pensei então na palavra lucidez, que deriva do latim luciditas, que significa "claridade", "brilho", e tem sua origem em lucidus, "claro", "luminoso". Na raiz de todas essas palavras encontra-se lux: luz. Quem não se recorda da caixa de fósforos Fiat Lux, que corresponde a "Faça-se a luz"?
Ter lucidez é como acender uma lâmpada na escuridão da mente. É permitir que a clareza substitua a confusão, que o discernimento ocupe o lugar da dúvida e que a realidade possa ser percebida com menos interferência das ilusões, dos desejos desenfreados e dos medos irracionais. Talvez, possamos exercitar um pouco dessa lucidez, observando alguns aspectos da vida cotidiana. No corpo, percebendo tensões musculares, dores, cansaços e necessidades reais, corrigindo a postura, sentindo o sabor dos alimentos, a qualidade da respiração e o contato dos pés com o chão. Nas emoções, identificando com sinceridade quando somos movidos pela raiva, pelo medo, pela inveja, pela angústia, pela solidão ou pela necessidade constante de aprovação e reconhecimento. Na mente, observando os pensamentos que foram automatizados ao longo dos anos, reduzindo o excesso de passado e de futuro. Aprendendo a fundamentar decisões em fatos concretos e não apenas em suposições, tão comuns em um tempo em que a tecnologia alcança alturas extraordinárias, enquanto as relações humanas, por vezes, tornam-se mais frágeis, desarmônicas e infelizes.
Que a semana em curso, nos permita buscar a verdade com menos ilusões, sejam aquelas criadas por nós mesmos ou aquelas absorvidas do entorno. Que possamos despertar, pouco a pouco, da ignorância entendida como falta de visão, recolhendo grão por grão aquilo que amplia a consciência. A luz possui características singulares: propaga-se, ilumina, revela e integra. Graças a ela reconhecemos formas, distinguimos caminhos e percebemos os objetos que nos cercam. Talvez, por isso, a Luz seja um dos símbolos mais universais da sabedoria. Que ela nos ajude a cultivar um estado de consciência mais claro, uma mente mais livre e uma paz interior que tantas vezes é mencionada, desejada e escrita, mas que somente pode ser verdadeiramente conhecida quando passa a ser vivenciada.
Sobre o autor

Cornélio Almeida Neto
Psicólogo Clínico
