MILAREPA!

Cornélio Almeida Neto

Estava ao lado de um Amigo muito querido que completava mais um ano de vida. Diante de mim, desembrulhava um presente que havia recebido: era um livro sobre Milarepa.
Perguntou-me se eu o conhecia. Respondi que havia assistido ao filme e comentei algumas cenas que ainda guardava na memória: os momentos de dor, os erros, as provas e a extraordinária capacidade de superação. O livro, porém, ainda não havia lido.
Aproveitei o ensejo, recordei algumas passagens e pus-me uma vez mais, a pensar sobre Milarepa. Sua vida nos recorda que o crescimento não pertence somente àqueles que acertaram, mas também àqueles que, reconhecendo os próprios erros, tiveram a coragem de mudar a direção dos passos, reconciliar-se com o passado e empreender uma verdadeira jornada de mudança e transformação.
Em sua juventude, Milarepa conheceu a dor, alimentou o ressentimento e direcionou sua vontade para a vingança. Em determinado momento, porém, compreendeu algo essencial: destruir os outros jamais reconstruiria a si mesmo.
Sob a orientação de seu Mestre, Marpa, começou então sua verdadeira batalha. Carregou pedras, ergueu torres e tornou a derrubá-las. Depois, voltou a construí-las. Cada pedra parecia ensinar-lhe silenciosamente que nenhuma construção interior se realiza sem esforço, disciplina, perseverança e constância.
Talvez as torres que erguia do lado de fora estivessem, na verdade, sendo construídas dentro dele. Milarepa descobriu que superar não significa apagar o passado, mas deixar de ser governado por ele, retirando de cada situação vivenciada, uma experiência.
Pouco a pouco, a força que antes alimentava a vingança converteu-se em vontade; a dor, em aprendizado; a solidão, em silêncio fecundo; e as provas, em degraus de ascensão. Talvez também carreguemos nossas pedras: erros, medos, ressentimentos, fracassos, orgulhos, vaidades, indiferenças e antigas escolhas equivocadas. Algumas gostaríamos simplesmente de abandonar pelo caminho. Mas talvez exista outra possibilidade: lapidá-las.
Aquilo que hoje pesa pode, quando compreendido, transformar-se em parte da construção do nosso templo interior. Crescer é também isso: transformar peso em força, dor em experiência, erro em aprendizado e cada queda em uma nova oportunidade de levantar-se com um pouco mais de atenção, alegria e ritmo. Milarepa iniciou sua jornada desejando vencer seus inimigos e terminou realizando uma conquista incomparavelmente maior: a vitória sobre si mesmo.
Que na semana em curso, saibamos reconhecer quais pedras ainda precisamos mover, quais torres necessitamos reconstruir e, sobretudo, qual parte de nós mesmos precisa ser compreendida, educada e superada. Talvez a verdadeira montanha não esteja diante de nós, mas dentro de nós. E, quando começamos a conhecer esse microcosmo que somos, pouco a pouco nos tornamos capazes de compreender o macrocosmo do qual fazemos parte. Afinal, a maior vitória não consiste simplesmente em alcançar o alto da montanha, mas em fazer nascer, durante a subida, um novo Ser Humano capaz de habitá-la.
Afetuoso abraço, Cornélio
Sobre o autor

Cornélio Almeida Neto
Psicólogo Clínico
