Nada a Temer (sobre a morte)

Cornélio Almeida Neto

Vez ou outra, para quebrar o gelo de alguma situação inesperada, costumo dizer que, quando passo ao lado do Campo da Esperança ou participo de algum velório, saúdo aqueles que ali já fazem morada e comento, em tom sereno: “Estou chegando, só não sei a hora!” Para muitos, isso soa como morbidez; imaginam que estou querendo desistir da vida... Respeito essas interpretações, sorrio e sigo o meu intento: diminuir, ainda que um pouco, esse medo tão comum à maioria dos seres humanos.
Há uma ilusão silenciosa que acompanha a ampla maioria das pessoas, desde sempre: a de que a vida se encerra onde os olhos já não alcançam. Por isso, muitos atravessam a existência carregando um temor constante: às vezes discreto, outras vezes dominante, como se a morte fosse um abismo, uma derrota ou uma injustiça. Sei que o tema é delicado, mas, quando observado com um pouco mais de lucidez, percebemos que a morte não é inimiga e nem injusta. É um limite natural. Um rito. Um retorno. Ao longo da história, vemos que a Natureza não tem pressa, tampouco crueldade. Ela possui ciclos magníficos. Ainda bem! Já pensou se tivéssemos de carregar, por eras e eras, uma personalidade que não abre espaço para a manifestação da Alma e fica presa somente às circunstâncias do cotidiano?
Assim como o corpo sabe adormecer sem que precisemos comandá-lo, também sabe partir quando chega o seu tempo. Existe uma inteligência orgânica, profunda, que conduz o fim da vida física com o mesmo cuidado com que conduz o seu início. Por isso, há algo simples que gosto de lembrar: não há nada a temer. Tememos porque não conhecemos. Tememos porque evitamos. Tememos porque transformamos a morte em tabu, quando ela é uma das poucas certezas que nos igualam. E, paradoxalmente, é justamente essa certeza que deveria nos libertar. Se a vida é breve, então é preciosa. Se é preciosa, merece presença. Se merece presença, exige verdade. E, se vivida de verdade, pede que amemos e que, amando de fato, saibamos manter as coisas em harmonia, ritmo e unidade. A morte não destrói a Vida. Apenas encerra uma forma. A Vida, essa força maior, invisível e contínua, segue sempre adiante.Talvez por isso carregamos esse belo epiteto: SER humano.
Que a semana em curso nos ajude a viver com mais consciência, menos apego, mais serenidade e verdade. Que saibamos retirar do nosso coração os pesos inúteis acumulados ao longo dos anos: mágoas antigas, temores imaginários, conflitos repetidos, pensamentos obsessivos, fantasiosos e circulares. Esforcemo-nos para não viver a vida em permanente modo de defesa. E, sobretudo, aprendamos a honrar o essencial: o afeto, a presença, o bom silêncio, a gratidão, a devoção, a coragem de ser simples, a investigação sincera sobre nós mesmos e sobre o mundo, o trabalho consciente, útil, generoso e necessário onde quer que estejamos.
Nada a temer. A Vida segue a Vida.
Sobre o autor

Cornélio Almeida Neto
Psicólogo Clínico
