ODISSEIA!

Cornélio Almeida Neto

Está em voga revisitarmos essa extraordinária inspiração poética de Homero, repleta de conteúdos simbólicos, míticos e filosóficos, que voltou a despertar o interesse e a vibrar no coração de muitas pessoas, especialmente com sua recente presença no universo cinematográfico.
Pensando um pouco a respeito e procurando resgatar algumas lembranças sobre a viagem de Ulisses, que pode ser compreendida como uma representação da própria existência humana, com suas diferentes etapas de desenvolvimento. Ao longo da caminhada, o Ser Humano experimenta o engano, confronta suas limitações, aprende com as experiências e procura reencontrar o sentido mais profundo da própria existência. Ulisses parte como um guerreiro vitorioso em Troia, marcado pelo orgulho de suas conquistas. Entretanto, antes de retornar ao seu reino, necessita atravessar inúmeras provas. Em cada encontro, descobre algo sobre suas capacidades, suas fragilidades e as leis que regem a Vida. Nessa leitura simbólica (e quanto ainda temos a aprender sobre os símbolos), Ítaca não representa apenas um lugar geográfico, mas o retorno ao centro da própria consciência. Para alcançá-la, Ulisses precisa aprender a dominar os instintos, vencer o orgulho, resistir às ilusões, escutar a sabedoria e permanecer fiel ao seu destino, mesmo quando os ventos parecem conduzi-lo em direção contrária.
Talvez uma das grandes lições da Odisseia seja compreender que não basta conhecer o caminho; é necessário transformar-se para poder percorrê-lo. O homem que retorna a Ítaca já não é o mesmo que dela partiu. A viagem transformou experiências em conhecimento, dores em discernimento e provações em oportunidades de sabedoria.
Porque a verdadeira Odisseia não consiste apenas em atravessar os mares do mundo, mas em aprender a governar os oceanos da própria alma, descobrindo e desenvolvendo a Vida Interior.
E quantas pequenas odisseias atravessamos diariamente! No trânsito, em casa, no trabalho, nas relações humanas, no jogo político e nas diferentes atividades do cotidiano, surgem situações que contrariam nossas expectativas e colocam à prova a serenidade, a paciência, a vontade e o discernimento. Talvez seja prudente diminuir as reclamações e procurar compreender o que cada situação possa ensinar, para além das dores e dissabores.
Quando respondemos mecanicamente às dificuldades, repetindo os mesmos pensamentos, emoções e atitudes, corremos o risco de permanecer navegando em círculos, conduzidos pelas circunstâncias, sem encontrar um porto verdadeiramente seguro.
As provas podem mudar de aparência, mas, enquanto não transformarmos nossa maneira de enfrentá-las, continuaremos prisioneiros das mesmas limitações.
Que na semana em curso, possamos reconhecer em cada experiência uma oportunidade de crescimento, transformando erros em aprendizado, dificuldades em fortalecimento interior e provações em degraus de autoconhecimento. Não escolhemos todos os mares que precisaremos atravessar, tampouco os ventos que encontraremos, mas podemos aprender a orientar as velas, governar o próprio barco e manter os olhos voltados para o horizonte.
Porque a maior conquista de Ulisses não foi simplesmente retornar a Ítaca, mas tornar-se, ao longo da travessia, um homem capaz de reencontrá-la. E talvez essa seja também a nossa grande Odisseia: atravessar o mundo sem perder o rumo da alma e, ao final de cada jornada, regressar um pouco mais conscientes ao centro de nós mesmos.
Afetuoso abraço, Cornélio
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Sobre o autor

Cornélio Almeida Neto
Psicólogo Clínico
