PENSAMENTOS!

Cornélio Almeida Neto

Conversando com amigos de longa convivência, comentávamos sobre a quantidade de informações que recebemos todos os dias e a dificuldade, cada vez maior de selecioná-las com a devida atenção. Vê-se de tudo, fala-se de tudo, ouve-se de tudo e, ao que parece, vamos ficando um pouco distanciados de nós mesmos, expostos a uma infinidade de estímulos e quase todos sem filtros.
Nessas idas e vindas da conversa, entre gracejos, comentários e algumas interjeições, pensei a respeito dos pensamentos. Não encontrei redundância melhor...
Talvez uma das maiores responsabilidades do nosso tempo não seja apenas escolher o que fazemos, para onde viajamos, o prato que comemos, quantas calorias ingerimos ou como estão os nossos bíceps, tríceps e o tão desejado abdômen trincado. Talvez seja, sobretudo, escolher aquilo que permitimos entrar em nossa mente. E fazer essa seleção é uma arte.
Saibamos ou não, cada palavra lida, cada linha escrita, cada imagem contemplada e cada som acolhido, deixam discretas impressões em nosso cérebro e em nossa sensibilidade. Aos poucos, vão abrindo caminhos que, pela repetição, podem transformar-se em hábitos, tendências, formas emocionais e maneiras de interpretar a Vida. Sem percebermos, podemos terminar reduzindo a imensa possibilidade humana às reações mais imediatas de sobrevivência, defesa e preservação, construindo formas cada vez mais estreitas e enclausuradas de viver.
A neuroplasticidade nos mostra algo que a Filosofia, por outros caminhos, já nos convidava a observar: aquilo que exercitamos tende a crescer e fortalecer. Pensamentos repetidos consolidam caminhos; aquilo a que damos atenção com frequência ganha espaço em nossa vida mental. E o que inicialmente era apenas uma impressão pode com o tempo, transformar-se em tendência, hábito e, quando acompanhado de escolhas e ações, participar da formação do nosso caráter.
Por isso, talvez seja prudente perguntarmos: Que livros, músicas e pessoas têm educado a nossa sensibilidade? Que imagens ocupam o espelho da nossa mente? Que palavras alimentamos repetidamente? Que vozes, interiores ou exteriores, orientam as nossas decisões?
Cada escolha participa, saibamos ou não, da arquitetura do ser humano que estamos construindo. Se desejamos uma vida mais serena, justa, harmoniosa e consciente, não basta esperar que essas qualidades floresçam espontaneamente. É necessário preparar o terreno e buscar semear diariamente ideias nobres. Contemplar o belo. Ouvir palavras que despertem o que temos de melhor. Conviver com aquilo que nos eleva. Exercitar pensamentos capazes de ampliar nossa visão da Vida. E sobretudo, transformar tudo isso em atos de bondade natural, simples e consciente. Quanto maior a amplitude da consciência, maior também a possibilidade de enxergar além das nossas próprias formas mentais. A verdadeira transformação, talvez não aconteça apenas quando mudamos de opinião, mas quando aprendemos a cuidar daquilo que permitimos habitar nossa atenção. Ao educarmos a mente, refinamos também o coração; e, quando pensamento e sentimento começam a caminhar na mesma direção, nossas ações podem revelar, com maior naturalidade, aquilo que existe de melhor em nós.
Que na semana em curso, possamos transformar a atenção em um consciente exercício de cultivo interior. Que aprendamos a selecionar melhor aquilo que vemos, lemos, ouvimos e alimentamos em pensamento, pois o que hoje acolhemos repetidamente, poderá amanhã, participar daquilo que pensamos, sentimos e expressamos.
Afetuoso abraço, Cornélio
Sobre o autor

Cornélio Almeida Neto
Psicólogo Clínico
