REPETIÇÃO!

Cornélio Almeida Neto

“Não suporto mais!” Assim comentava uma pessoa que chegara ao meu local de trabalho, reclamando do trânsito: “todo dia a mesma coisa.” Outro dizia estar cansado de fazer sempre as mesmas coisas: ir ao mesmo restaurante, ver o mesmo tipo de filme, ouvir o mesmo ritmo de música… a mesma história, o mesmo ciclo, a mesma chateação, a mesma raiva.
Observando essas situações e buscando uma melhor harmonia comigo e com o entorno, passei a refletir sobre a repetição.
Sob o olhar mecânico, a repetição pode se tornar um peso. Uma dor sem moldura que atravessa o tempo e, quando percebemos, já estamos aprisionados pela forma como lidamos com ela.
Mas, a repetição também guarda um valor profundo quando olhada por outro ângulo. Todos os grandes artistas, em diferentes áreas do conhecimento, recorrem a ela para expressar sua arte. Não há domínio sem repetição, não há beleza sem constância. Repetir uma, duas, três vezes pode parecer suficiente. Mas repetir dez, vinte vezes a mesma ação revela algo mais: ou estamos ausentes no momento, ou estamos sendo convidados a estarmos mais presentes.
A repetição torna-se valiosa quando deixa de ser automática e passa a ser consciente. Quando a cada nova tentativa, agregamos algo, é como quem afina um instrumento. Se em cada repetição, houver um pequeno avanço, uma gota a mais de aperfeiçoamento, então não estamos apenas repetindo: estamos caminhando. E, de certo modo, nos tornamos também pequenos artistas.
Assim, a repetição transforma-se em um processo vivo, prazeroso, de consolidação do conhecimento. Não importa a velocidade, desde que não se pare. Essa possibilidade diária de repetir pequenas ações, mesmo que simples e lentas, pode conduzir a grandes e significativas conquistas.
Que tal na semana em curso, aprendermos a repetir sem tanta mecanicidade? A vida, por natureza, é repetitiva e uma das coisas que mais nos desgastam é a sensação de “todo dia a mesma coisa”. Mas talvez não seja a repetição o problema e sim a falta de consciência dela. Se buscamos a arte de viver, então cada dia deve ser repetido, mas jamais da mesma forma interior. Ninguém se aperfeiçoa sem repetir, mas apenas evolui quem aprende a estar presente em cada repetição. O mesmo gesto, feito com atenção, revela algo novo. O mesmo caminho, percorrido com consciência, não é o mesmo. O mesmo dia, vivido com lucidez, nunca se repete. O que cansa não é o movimento exterior, mas a ausência de movimento interior.
Sobre o autor

Cornélio Almeida Neto
Psicólogo Clínico
