SE!

Cornélio Almeida Neto

Algumas pessoas que receberam, na semana passada, a mensagem sobre Milarepa não o conheciam. Curiosamente, várias comentaram que a vida de muitos de nós guarda alguma semelhança com a dele e acrescentaram: Se tivéssemos um Mestre físico, talvez fosse mais fácil...
Fiquei pensando justamente nessa pequena palavra: SE. Duas letras apenas, mas capazes de abrigar possibilidades, dúvidas, esperanças, desculpas, justificativas, ameaças e adiamentos.
Recordei então, uma conhecida passagem da história de Esparta. Filipe II da Macedônia, pai de Alexandre, o Grande, havia transformado seu reino em uma grande potência militar. Reformara o exército, aperfeiçoara a célebre falange macedônica e ampliara consideravelmente sua influência sobre o mundo grego. Segundo a Tradição, em determinado momento, dirigiu aos espartanos uma ameaça que, em essência, dizia: “Se eu entrar na Lacônia, expulsarei vocês. Aconselho-vos a vos renderdes sem demora, pois se eu levar meu exército à vossa terra, destruirei vossas fazendas, matarei vosso povo e arrasarei vossa cidade."
Os espartanos, conhecidos pela extraordinária economia de palavras, daí a expressão, “resposta lacônica,” responderam com uma única palavra: SE. Que resposta! Não era apenas uma palavra. Era uma postura diante da vida. O “se” de Filipe apresentava uma possibilidade como ameaça. O “SE” dos espartanos devolvia-lhe a consciência de que uma possibilidade ainda não é um fato. Talvez aí resida uma bela lição. Quem conhece um pouco melhor a própria identidade não precisa responder a todas as provocações, a todos os insultos, explicar-se continuamente, nem construir longos discursos para afirmar aquilo que é.
Há silêncios que dizem muito. Há palavras que dizem pouco. E há uma única palavra que, pronunciada no momento justo, pode revelar toda uma disposição interior.
Entretanto, em nossa vida cotidiana, utilizamos frequentemente outro tipo de “se”. Se eu tivesse mais tempo... Se eu tivesse mais dinheiro... Se tivesse nascido em uma família diferente da minha... Se tivesse encontrado a pessoa certa... Se tivesse começado antes... Se alguém me ensinasse... Se as circunstâncias fossem diferentes... Se eu tivesse um Mestre... E, de “se” em “se”, podemos transformar possibilidades em adiamentos e terminar esperando condições ideais que talvez nunca cheguem. O “se” deixa então de abrir possibilidades e começa a construir prisões.
Talvez, o problema não esteja na palavra, mas na maneira como utilizamos. Há um SE que interroga e abre caminhos. Há um SE que pondera antes de agir. Mas existe também um se que posterga, justifica e transfere para amanhã aquilo que já poderíamos começar hoje. O tempo, como é sabido, não trabalha com hipóteses. Ele passa.
E a morte, talvez a mais incontornável realidade da existência, recorda-nos paulatinamente que não dispomos de um número ilimitado de amanhãs.
Que na semana em curso, tenhamos a coragem de observar quantos “ses” colocamos entre nós e aquilo que verdadeiramente deveríamos realizar. Que possamos, pouco a pouco, descobrir quem somos para além das circunstâncias, das opiniões, dos títulos e das aparências. Talvez, encontrar uma razão pela qual lutar, com meios, fins e princípios justos, seja um pequeno/grande início. Mas, enquanto aguardamos as condições ideais, a própria Vida continua oferecendo provas, pessoas, dores, dificuldades e oportunidades que também podem nos ensinar, porque existe um momento em que precisamos deixar de dizer:“Se um dia...” e começar, a afirmar:“Hoje.”
Afetuoso abraço, Cornélio
Sobre o autor

Cornélio Almeida Neto
Psicólogo Clínico
