SOBREVIVÊNCIA!

Cornélio Almeida Neto

Estava conversando com alguns amigos sobre diversos assuntos quando um deles, por algum tempo, ocupou o centro das atenções. Cada um apresentava suas observações sobre a sobrevivência. Como o tema permaneceu ressoando em minha mente, pus-me a refletir sobre o quanto podemos passar a existência preocupados em sobreviver, esquecendo-nos, muitas vezes, de verdadeiramente viver.
Quando enfatizamos demasiadamente alguma coisa, corremos o risco de fazer toda a nossa vida girar em torno dela, como se estivéssemos patinando sempre no mesmo lugar. E, ao que parece, a sobrevivência física e a preservação da espécie continuam sendo dois dos instintos mais evidentes em nossa caminhada.
Os animais são conduzidos, em grande parte, por seus instintos e necessidades naturais. Uma vez satisfeitas, encontram relativo repouso. O Ser Humano, porém, possui uma dimensão muito mais ampla: além dos instintos, experimenta emoções, paixões, sentimentos e a possibilidade de orientar conscientemente a própria existência.
Quando vivemos predominantemente para satisfazer necessidades e desejos imediatos, surge, não raro, uma estranha sensação de vazio. Procuramos preenchê-la com coisas e mais coisas, férias e mais férias, viagens e mais viagens, como se a próxima experiência pudesse finalmente oferecer aquilo que ainda não encontramos dentro de nós.
Raramente ouvimos alguém dizer: “Estou empenhado na sobrevivência da minha alma, no cultivo da minha essência, na preservação daquilo que possuo de mais elevado.”
Entretanto, saibamos ou não, somos construtores de nós mesmos. Trazemos em estado latente possibilidades de desenvolvimento que somente se tornam reais quando transformadas em virtudes vividas, e não apenas intelectualizadas. É nesse cultivo interior que podem florescer os sentimentos mais elevados do Ser Humano: os éticos, relacionados ao Bem e à Bondade; os estéticos, que nos aproximam da Beleza; e os místicos, que nos convidam à harmonia com a Lei e à busca da Verdade. Talvez, a verdadeira questão não seja apenas quanto tempo conseguiremos sobreviver, mas o que estamos fazendo viver dentro de nós durante o tempo que nos foi concedido.
Que na semana em curso, sem negligenciarmos os cuidados necessários à sobrevivência física, possamos dedicar maior atenção àquilo que temos de mais sagrado: nossa dimensão interior, que merece abrigo e cultivo no coração.
E, ao encontrarmos dificuldades para reconhecer o que verdadeiramente importa, tomemos a morte como fiel conselheira. Sua presença silenciosa recorda-nos a brevidade da existência e ajuda-nos a distinguir o passageiro daquilo que possui valor duradouro. Porque sobreviver é conservar a existência; viver é conferir-lhe sentido. E talvez a maior conquista não seja acrescentar mais anos à vida, mas fazer florescer, em cada dia, algo que tenha a fragrância da eternidade.
Sobre o autor

Cornélio Almeida Neto
Psicólogo Clínico
