SUPERFÍCIE!

    Cornélio Almeida Neto

    Cornélio Almeida Neto

    Psicologia
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    08 de julho de 20263 min de leitura
    SUPERFÍCIE!

    Estava com algumas crianças da família assistindo a um filme infantil. Em determinada cena, um nadador afastava-se da costa e, já bastante cansado, lutava para permanecer na água. Um dos personagens, aflito, exclamou: Ele precisa vir rápido à superfície! Foi então que uma das crianças, até aquele momento concentrada na cena, abriu um largo sorriso e comentou em voz alta:Superfície? (risos...) Já ouvi falar de Super-Homem, Supermulher, Supergato... mas superfície, não! A espontaneidade da observação arrancou risos de todos. Depois, permaneci pensando naquela palavra superfície.Talvez uma das maiores tendências do nosso tempo seja justamente viver nela.

    Andamos, muitas vezes, pelos acostamentos da vida, aguardando que alguma circunstância mude para que, então, decidamos mudar também. Evitamos compromissos mais profundos, receamos errar, adiamos decisões importantes e permanecemos indefinidamente na indecisão. Assim, o tempo passa, os hábitos se consolidam, surgem as crises e, quando despertamos, percebemos quanto deixamos de caminhar.

    Em muitos momentos, esquecemos a estrada principal e preferimos permanecer às margens da existência. Podemos perceber isso em diferentes aspectos da vida. No plano físico, o corpo transforma-se em vitrine. Cuidamos mais da aparência do que da vitalidade. Fazemos exercícios, muitas vezes, pensando apenas na estética e raramente na energia que sustenta a vida. Alimentamo-nos para a fotografia, e não para a nutrição. Dormimos para recuperar a produtividade, e não para restaurar o organismo. Pouco a pouco, o piloto automático assume o comando: acordar, trabalhar, comer, olhar a tela, dormir. O corpo funciona, mas quase já não é sentido. Café para despertar, remédio para dormir, algum estímulo para relaxar.

    No plano emocional, permitimo-nos sentir apenas aquilo que parece socialmente aceitável: alegria, entusiasmo, bom humor. Raiva, medo, tristeza e insegurança são, muitas vezes, empurrados para debaixo do tapete. Procuramos distrações constantes: festas, séries, compras, curtidas e entretenimentos. Sem estímulos externos, instala-se um estranho vazio. Conversamos sobre o clima, o trânsito, o futebol, e o relacionamento, mas raramente sobre a alma. Águas paradas tornam-se pântanos. Emoções não compreendidas acabam, mais cedo ou mais tarde, buscando outra forma de se manifestar.

    No plano mental, acumulamos informações em abundância, mas assimilamos muito pouco. Pensamentos chegam aos milhares; ideias verdadeiramente nossas são raras. Tememos o silêncio. Permanecer alguns minutos sem telas, sem sons e sem distrações parece um castigo. Entretanto, é justamente no silêncio que a superfície começa a romper-se e o fundo se revela. Quem vive apenas na superfície vê as sombras e acredita que elas são a própria realidade. Aproxima-se das aparências, mas dificilmente alcança a essência. Talvez seja por isso que aprofundar-se exija coragem. Coragem para abandonar respostas prontas. Coragem para questionar hábitos antigos. Coragem para encontrar um pouco mais a si mesmo. Se, por alguns instantes, deixássemos de viver apenas na superfície, qual seria a primeira estrada interior que teríamos disposição para percorrer?

    Que a semana em curso, nos permita mergulhar um pouco mais fundo naquilo que possuímos de mais verdadeiro. Que encontremos respostas capazes de ampliar a consciência, fortalecer a alma e revelar, pouco a pouco, a nossa verdadeira identidade.

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    Sobre o autor

    Cornélio Almeida Neto

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    CRP-DF 5693

    Psicólogo Clínico

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